sábado, 27 de agosto de 2022

Mas o texto era sobre profissão...

     Hoje é dia da Psicologia, mais especificamente o dia da regulamentação da profissão no Brasil.

    Desde o início da faculdade somos indagados sobre o que nos levou a escolha do curso. Uma das minhas primeiras respostas foi: "As pessoas sempre me procuram para conversar e eu escuto, sempre escutei, não sei dar conselho. Mas chegou um momento que escutar já não bastava" (ou algo do tipo). A real é que eu nunca tive uma super resposta sobre a razão da escolha do curso.

    Não sei a primeira vez que cogitei psicologia mas foi antes de ir para a primeira faculdade, tanto que fui aprovada em Psicologia e não vi a lista de espera. Quando passei por terapia falava em achar outros cursos, rodeava e não nomeava com certeza nenhum. Mesmo sendo PÉSSIMA conselheira as pessoas continuavam me procurando, ainda que eu não tivesse qualquer experiência na questão que elas estavam tentando resolver, mesmo não sendo tão boa em comunicação, sendo mais introvertida quando se tratava de falar sobre mim. E eu estava lá ouvindo... e as vezes devolvendo.

    Quando eu desisti da primeira faculdade precisei estar em terapia e acompanhamento psiquiátrico por um tempo, voltei pra minha cidade e afirmei que faculdade não era pra mim. Eu queria encontrar então o que era pra mim. E eu tentei fotografia, fiz cursos, ganhei uma câmera, tentei fotografar como profissão mas na bolsa carrego algumas tentativas falhas e deixei a fotografia como algo que me faz bem, que me permite criar livremente sem TER QUE entregar nada a ninguém.

    Eu sempre senti que DEVERIA, sim como um DEVER, ajudar algumas pessoas que estavam na minha vida. Eu não sabia como, mas buscava estar presente de alguma forma para que soubessem que eu estava ali se precisassem. Nem sempre consegui, muitas vezes tentei e encontrei barreiras, inclusive barreiras pessoais, limites, eu não tinha ferramentas e estratégias suficientes para agir, mas eu estava ali.

    Um grande amigo, que por vezes e vezes foi como um irmão, compartilhava momentos de dificuldade comigo, antes ou depois que aconteciam, eu escutava, não julgava mas não sabia como ajudá-lo além de pedir mais tempo e de fazer algo junto que fosse leve. Um dia ele me disse que precisava partir e que eu iria ficar bem e ajudar outras pessoas. Na hora eu ignorei isso, não importava e tentei oferecer ajuda, desesperada, sem saber como conduzir. Depois de um tempo da sua partida elaborei que apenas escutar já não era suficiente. Com sua partida experimentei muitos sentimentos que eu não sabia nomear, que não dava espaço para refletir sobre. Desde então muitos sentimentos tem vindo à tona, até os dias atuais, com situações diferentes. 

    Eu já tinha feito vestibular para a faculdade daqui, tinha passado para a primeira turma mas ainda morava em outra cidade então neguei. Depois de um tempo aqui resolvi fazer algo da vida e tentar o vestibular foi o primeiro passo. Eu passei. E todas as vezes que me vi perdida eu dava um jeito de estudar algo então por que não tentar estudar algo? O desafio na minha mente era entrar e, se entrasse, ultrapassar o terceiro período. Hoje estou no décimo período.

    Ao longo do curso refiz essa pergunta do motivo diversas vezes, me questionei sobre o que queria com essa trajetória. Hoje eu concordo que só escutar não era suficiente e não me bastaria, ainda bem que não me contentei. Hoje eu sei nomear alguns porquês, consigo entender alguns comportamentos. Isso ainda funciona para mim como uma balança, me falta experiência, maturidade, distância ou sabedoria para saber separar sintoma de escolha  Dentro de mim passo por fases que deixo de me escutar quando estou inundada de sentimentos ignorados vindo à tona, como agora que estou na maior parte do tempo disfuncional.

    Atualmente estou encerrando um ciclo, estou me deparando com muitas certezas caindo por terra, estou precisando ter paciência para analisar alguns valores, reprogramar meu repertório de estratégias e pensar sobre atitudes. Estou tendo que lidar com conceitos que sempre estiveram comigo e estavam distorcidos. Porém não tenho todo o tempo disponível para me dedicar a esse estudo aprofundado de mim mesma, não tenho tido forças para compartilhar esse processo com a maioria dos amigos. Preciso lidar com a finalização do curso, preciso pensar para fora de mim e sobre o outro, os outros os quais eu lido em meus estágios e que necessitam de mim por completo quando estou diante deles, é sobre eles. Quando acaba a sessão é sobre tudo, é sobre tentar por cada coisa na sua casinha.

    Diante desse cenário não estou conseguindo manter minhas relações, não consigo dar a atenção que gostaria a cada amizade, a alguns familiares, a escuta que antes então era uma dificuldade não está tendo seu momento, não por falta de vontade, mas por falta de energia, eu queria mas não consigo dar conta de tudo. Estou suspensa de mim e não consigo apenas ir seguindo. E digo isso porque verdadeiramente me importo com todos eles.

    Ao mesmo tempo tenho conseguido alimentar um relacionamento que antes jamais acreditaria que pudesse existir, que dirá se manter. E que está me fazendo ter vontade de imaginar situações, momentos e um futuro. Eu nunca sonhei a longo prazo antes. E com meu parceiro estou conseguindo partilhar grande parte de tudo isso que atravessa minha mente, buscando equilibrar a fala com a escuta. Mesmo com a distância física não sinto que temos uma distância, seguimos íntimos das partes boas como das partes que estamos tentando enfrentar. Quando lembro que tenho um namorado como ele há mais de dois anos é como uma surpresa boa no meu dia e sorrio. 

    Isso tudo me leva a uma grande fuga, são muitos cenários distintos para organizar, preciso me atualizar sobre as amizades, preciso me reinventar na relação familiar, preciso concentrar para escrever um trabalho de conclusão de curso, e eu fujo inclusive dos meus pensamentos, dos eletrônicos, das reflexões longas como essa tentativa de organização. Geralmente você me encontra arrumando a casa, as gavetas, limpando a mesa, a bolsa, assistindo coisas sobre organização, aguando as plantas ou saindo correndo pros estágios. É tudo que tenho feito. Além de prometer que vou ler o grupo das amigas, vou ligar para a outra amiga, vou ler os artigos que preciso, vou voltar a escrever o tcc, vou fazer os trabalhos atrasados, vou escrevendo os relatórios de estágio, até a hora da fuga. Eu sei que preciso enfrentar mas falta energia, energia que uma noite boa de sono não tá repondo, energia que cansaço físico não alivia nem recarrega.

    Mas o texto era sobre a profissão, estou tentando me apropriar do trajeto que trilhei para me tornar psicóloga. Porque eu quis fugir disso também. Evitar... eu tenho evitado mas na real esse texto inteiro passa em looping na minha cabeça todos os dias e como eu sei que escutar não basta eu resolvi escrever, tirar daqui de dentro, respirar sem uma âncora em cima do meu peito. Ao som de várias do Pink Floyd como: "Running over the same old ground/ What have we found?/ The same old fears".

    Passei o dia com tudo isso na mente. Eu cheguei onde eu queria, no esgotamento mental e na satisfação de tirar isso da minha cabeça, ao menos por agora. E foi exatamente por esse propósito que este blog foi criado, há 14 anos. Ainda bem. Estico minha coluna, solto minha mandíbula e volto quando for preciso.

domingo, 29 de agosto de 2021

21

 Revendo fotos me deparei com uma informação: eu achava que tinha ido embora com 22 anos quase 23 e na realidade eu fui com 21. Vinte e um anos e uma carga mental como se tivesse atrasada, sempre. Cobrava de mim atitudes de alguém que já tinha vivido todas as experiências, como pesou. Hoje, neste exato momento eu senti alívio por ter ido com vinte e um anos. Quantas coisas automaticamente se justificaram por eu ter apenas 21. Um pouco de receio me ronda apenas pelo fato de que passei todos esses anos após ter voltado para minha cidade ainda sentindo uma cobrança, uma culpa pelas escolhas que fiz e só tinha 21. Uma diferença de 7 anos, novamente 7 anos, para uma ficha cair. Talvez daqui a 7 anos eu olhe para minhas culpas e inseguranças e pense: você só tinha 28 como poderia saber de tanto? Hoje eu olho para amigas que tem vinte e poucos ainda e penso: tudo bem, elas ainda vão viver o suficiente para olharem e entenderem suas inseguranças de agora, mas não me acolho da mesma forma, talvez agora eu consiga acolher a Camila de 21, de 22 e 23. Talvez agora eu não consiga ainda acolher a de 24, 25.. mas sei que em breve eu vou conseguir, porque nem mesmo a de 28 após ter vivido tantas mudanças nos últimos 3 anos se sente segura com quem está se tornando. Dizem que eu estou no caminho certo, dizem que sou didática, dizem que serei ótima mas ainda me saboto e não consigo acolher esses dizeres como verdade. Quem sabe daqui um tempo, quem sabe a cada 7 que passar de uma experiência uma nova ficha cai e desperta minhas interpretações para novos olhares? Hoje admiro a coragem que tive encarando uma vontade, admiro ter vivido, entendo algumas escolhas em não viver... Afinal, eu tinha apenas 21.

domingo, 27 de junho de 2021

 Talvez eu não saiba compartilhar. Uma briga em que cada lado tem sua verdade e seus pontos inatingíveis. Uma pessoa recorrentemente desagradável que qua do precisa falar fica sem ninguém, um choro constante travado na guela. Apatia. Paralisação. Tenho os mesmos defeitos que julgam os outros, que eu julgo e eu cometo. E naturalmente eu tenho me construído desagradável a quem chegue a ficar a longo prazo, já não acho que seja crença. Silêncio. O silêncio que eu acho bonito e interessante no mundo ideal que existe me mata, me dói, me esvazia, me explode. Não sei mudar sozinha, qua do acho que vou conseguir eu falho uma duas mil vezes. Eu também tenho vinte e tantos anos e não construí nada e ao invés de construir eu paro. Ao invés de sentar a bunda pra escrever eu paraliso e desagrado. Meu tom de voz e escolha de palavras desagradam. Todos os dias pessoalmente eu desagrado sempre alguém. E me sinto mal sempre que me.elogiam porque não sabem que no fundo eu desagrado. Eu me afundo em mim mesma e já não tenho mais expressão. A garanta dói a sabe se lá quantos anos. O corpo fecha. A cabeça acelerada desde o nascer do dia me oferece imagens que eu nem lembrava que existia. Eu sei que dentro deles eu causa desconforto e incômodo. Se eu pudesse ir embora eu iria, de longe eu sou mais aceitável. E conforme uma palavra sai eu expresso mas não vai mudar, não sei mudar de verdade. Da vontade de gritar. Minha cabeça gela dum jeito que nunca percebi sentir, da calafrio. Eu tenho muito medo. De perder, de errar e eu sigo perdendo e errando e sem saber mudar. Eu passo por dias estáveis mas não está estável porque dentro deles algo que fiz já incomodou e eles guardam até não quererem mais. Porque eles podem ir embora. E em algum momento vão escolher ou vao ir. E eu vou ficar sem estar. Em lugar algum. Eu quero ir embora, pra lugar nenhum. Mas eu paralisei e eu não sei o que fazer. E eu não posso pedir ajuda porque já fui desconfortável, me sinto desconfortável porque ao mesmo tempo que parece nada é tanto. Eu não sei compartilhar e não compartilhar dói também. Não resolve chorar e se desculpar. Não consigo fazer terapia porque não quero incomodar mais. Eu devia ter construído algo e eu não sei por onde ir. E no fim das contas a solidão, causada, aqui dentro.

sábado, 24 de abril de 2021

 Queria sentar com você em um café ao por do sol,

nesse vento frio de outono

devanear, olhar seus olhos iluminados 

e sorrir te admirando.

Queria poder reunir com meus amigos e você

nos bares de costume e vivenciar essa experiência

de novo.

Queria carregar você comigo 

pra quando desse vontade

poder te abraçar apertado

e suspirar de 

alivio 

quando você abraçasse de volta.

É difícil de acreditar as vezes

que tenho parceiro de vida

comigo

em meio a essa loucura 

que posso ser

que o mundo tem sido

que a escolha tem sido 

permanecer.

Quando penso sobre isso

e lembro que é de verdade

não um desejo, uma imaginação

sorrio e agradeço 

por essa ser nossa escolha

há meses

e sinto 

por não ter algumas pessoas

importantes

por perto pra admirar junto.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O que eu faço com isso?

 Chorosa há uns dias, emoções se confundindo e fundindo em meio a uma tpm que parece longa, a uma virada de mês que parece distante e presente desde o primeiro dia, um medo do que posso sentir, um descontrole de pensamentos, um enorme fluxo de pensamentos que me deixam pesada, cansada, culpada, distante. Conteúdos bestas que passam no segundo seguinte, conteúdos insistentes que teimam em sondar o presente, conteúdos que me acompanham  vida toda e que foram sendo agregados há novas informações, conteúdos que as datas me proporcionam revisitar de uma forma muito mais intensa que o cotidiano.

Desde o pensar sobre como faz calor em setembro e continua em outubro sem chuvas fortes aqui mas que naquele dia específico caiu mundos e fundos do céu e que nos anos que se seguiram o dia amanhece azul e por mais que eu durma confusa e profundamente triste eu me sinto acolhida e abraçada pelo azul que me acorda. 

A ansiedade de não saber elaborar uma conversa com alguém tão próximo e por vezes tão distante e questionamentos sobre o que não nos mantém próximas, tentando entender a minha parcela de responsabilidade mas que ela não é a única.

Pensando sobre como, há alguns anos, nessa fase do ano eu sempre estou em conflitos com pessoas próximas porque eu não me sinto confortável nesses dias e me sinto tão cansada que não sou capaz de formular uma frase que expresse isso bem no momento devido e sem querer que isso se torne uma justificativa e ao mesmo tempo sem apagar isso por ser verdadeiro e sem querer que isso não vire uma bola de neve mas sem energia pra mudar e agir.

Eu queria muito ter pessoas perto fisicamente pra compartilhar o meu silêncio ao lado delas. As vezes eu tenho preguiça na ação de falar e um gesto, um olhar, um sorriso, um encostar seria tão mais leve e não é culpa de ninguém. 

Eu me encontro em um momento distorcido, procurando a leveza que me acompanhava até outro dia, sem querer sentir o que estou sentindo travado na garganta, com a voz inclusive falhando, sem saber agir com as pessoas próximos a ponto de poder alivia-las e sem antes saber me aliviar, me sentindo incapaz, cansada de nada. 

Eu penso que preciso mudar tanta coisa, mudar como eu reajo, como respondo, como escuto.

Eu identifico tantos e tantos pensamentos, o que eu faço com isso?


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Menino Poeta

Outro dia cê me contou sobre uma mulher, poetisa, chamada Henriqueta Lisboa, e esse nome me soou muito familiar. Conversa vai, conversa vem descobri que ela escreveu uma poesia a qual eu aprendi e guardei de cor quando tinha por volta de 8, 9 anos quando li num dos livros de uma coleção que ganhei da escola. Era madrugada quando estávamos conversando, levantei e saí procurando se ainda tinha o livro por aqui. Procurei, abri todos os armários e nada! Procurei de novo e ACHEI! Folheei o livro e ao ler o título me veio a alegria de saber que sabia a poesia, então reli:

 O Menino Poeta

 
O menino poeta
não sei onde está.
Procuro daqui
procuro de lá.
Tem olhos azuis
ou tem olhos negros?
Parece Jesus
ou índio guerreiro?
Trá-lá-lá-li
trá-lá-lá-lá
Mas onde andará
que ainda não o vi?
Nas águas de Lambari,
nos reinos do Canadá?
Estará no berço
brincando com os anjos,
na escola, travesso,
rabiscando bancos?
O vizinho ali
disse que acolá
existe um menino
com dó os peixinhos.
Um dia pescou
- pescou por pescar -
um peixinho de âmbar
coberto de sal.
Depois o soltou outra vez nas ondas.
Ai! que esse menino
será, não será?...
Certo peregrino
(passou por aqui)
conta que um menino
das bandas de lá
furtou uma estrela.
Trá-lá-li-lá-lá
A estrela num choro
o menino rindo.
Porém de repente
(menino tão lindo!)
subiu pelo morro, tornou a pregá-la
com três pregos de ouro
nas saias da lua.
Ai! que esse menino
será, não será?...
Procuro daqui
procuro de lá.
O menino poeta
quero ver de perto
quero ver de perto
para me ensinar
as bonitas cousas
do céu e do mar.

Para minha surpresa no começo da conversa você falava que Henriqueta era de.. Lambari! E disso eu não lembrava e ao reler a poesia ela falava de alguém que me lembrava.. você! O menino poeta que escrevia sobre mim desde janeiro, coisa inédita na minha vida e não teve um escrito seu sequer que eu não tenha ficado emocionada, feliz, eufórica e.. chorado. Eu não sei porque as lágrimas mas sinto que a cada palavra minha vontade é dar um abraço longo e forte e agradecer infinitamente seu olhar pra mim não só metaforicamente falando. Eu poderia ficar olhando seu olhar por horas a fio porque me trás paz, seu olhar que brilha e vive intensamente, e fica bravo, e orgulhoso, e que me ensina e proporciona experiências que eu nunca vivi ou não acreditava que viveria. E sem planejar, depois de correr e fugir, eu quis ficar e ainda bem que fiquei e deixei o resto passar. Agradeço você na vida, menino poeta.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Bomba Relógio

A intensidade de eventos singelos tem ganhado uma proporção enorme no meu peito, é tudo muito forte, acho que isso já ficou claro... a garganta fecha mais facilmente, o corpo se aquece e treme sem que eu perceba, tenho sido eu uma bomba relógio?
A vontade de participar de coisas que não poderei participar, em dividir alegrias que só poderei acompanhar de longe, os questionamentos sobre porque eu deixo de ter alguns contatos sendo que "na vida devemos engolir alguns sapos", são definitivamente coisas que não sei expressar. O enjoo a cada emoção que chega sem esperar é a resposta de um corpo que está alerta, eu não tenho certeza do porque. Tenho sonhos recorrentes que eu não escolhi ter. É para além do esperado por ocorrência de uma pandemia, é como se juntassem tudo numa panela de pressão que já não está bem regulada. E lá se vai, de novo, a minha concentração, meus ombros doem e esqueço de respirar normalmente. Não é só de tensão que se vive na quarentena mas elas também precisam sair.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Eis que você

São meia noite e meia e eis que você me questiona algo que eu pensei que seria uma dessas conversas interessantes que a gente sempre tem, algo profundo mas descontraído, mas eis que você, como muito de costume, me diz palavras belíssimas, inesperadas e que me emocionam a ponto de travar um sorriso no meu rosto, sorriso esse que já estava presente porque eu estava imaginando seu cheiro e como queria senti-lo novamente, agora. Sei que soa inferior a forma que me avalio ou a surpresa que sinto quando me elogia, fico mesmo meio deslocada, não sei me comportar com isso, poderia simplesmente soltar um: sim sim obrigada! Digno de uma mulher cheia de si. Acho bonito também mas ainda não sinto isso e com seu olhar constantemente doce, sutil, lindo e possível quando se direciona a mim me pega desprevenida, desde o começo. Que apaixonante é ter alguém por perto que te mostre outros ângulos de si mesma, naturalmente. Mais ainda quando é alguém que você admira de volta, que gosta de ouvir.. de observar.. e de ouvir a risada. Uma das minhas favoritas da vida! Daquelas que eu ouço e sorrio junto imaginando o quão bonito você está enquanto ri. Eu reforço muito que acho bonito, é que eu acho mesmo. Acho bonito sua delicadeza do olhar, a delicadeza com/sobre/para as pessoas e acho curioso o quanto você acha que é bobo e não sei se tem a real dimensão do quão maravilhoso é... tem sido! Sem colocar em altar, sabendo dos possíveis defeitos humanamente aceitáveis. Sua calma e organização mental me provoca, você me faz repensar algumas atitudes minhas mesmo sem intenção, desde o começo, desde antes do começo. Eis que você com um comentário (e muitos poemas na estrada), importante, relevante sem pretensão mexeu tanto comigo, de uma forma positiva, que eu consegui escrever! E olha.. eu tô tentando isso a semana todinha. E que semana... pesada, que eu questionei se minha presença na vida de muitas pessoas estava sendo agradável ou automática, verdadeira ou forçada. Armadilhas do aparelho psíquico. Numa conversa que começou aos prantos cê prendeu minha atenção e me fez rir, fez pensar como seríamos uma bela dupla na adolescência de acordo com nossas fotos.. É... Cê deve mesmo ser a reparação histórica do universo comigo.
Eis que você me lembra de ser leve!

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Auto.. lá!

Curioso é você se pegar pensando na autoimagem que construiu com passar da vida, que não é tão longa ainda mas já não é mais tão curta, nas experiências que viveu, no que absorveu delas a sua maneira, muitas vezes distorcidas. Mas afinal o que é distorção? O que o outro vê que vejo de mim? O que vejo do outro vendo de mim? O que o outro não teve intenção de passar e mesmo assim foi interpretado e armazenado? Vai saber.
O ponto é que com passar das vivências podemos ser muito cruéis e ter noção dessa crueldade sem denominá-la como tal. Cruéis com quem somos, que sabemos que somos mas que a insegurança joga lá pra debaixo do tapete. "Hey, eu não sou isso que me mostro. Em algum momento você vai descobrir." Ou eu vou descobrir que essa é uma bela autossabotagem? Eu sou eu, com defeitos sim, real. Eu só não sei se essas características são minhas porque não me reconhecem nelas, não.. me.. reconheço nelas. Essas características que você diz e enchem meu coração, me abrem sorriso no rosto mas logo algo vem e sussurra: será? Quanto tempo para ser descoberta? Quando vai ser a primeira situação que eu não vou saber conversar sobre um assunto e vou ser pega?
Mas espera!! Descoberta?! Pega?! De que?!
Encarar seus monstros e fazer amizade com eles vai lá de um papo tête-à-tête, vai ser mostrar pro outro quem se é, quem se achava que não era, sem vergonha mesmo com muita vergonha. É acolher o elogio e aceitar que pode ser seu sim sem medo do depois. Que depois não é mesmo? É aceitar ajuda para reconstruir sua autoimagem, sem necessariamente pedir. É assumir a fluidez da vida sem pesar do passado ou sem apagá-lo como se nunca existisse. Um dia por vez, uma ressignificação por vez. Auto imagem... Auto estima.. Auto sabotagem.. Auto.. lá!

sábado, 14 de setembro de 2019

Preciso falar

Nunca lidei bem com perdas, sempre tive medo delas mas como consequência da vida elas sempre aparecem, das suas mais variadas formas, muitas vezes inesperadamente, vezes com aviso prévio cujo grito é ignorado, vezes por ter chegado a hora.
Independente da forma, nunca lidei bem. Primeiro porque não é sobre mim, é sobre alguém que desconheço em sua totalidade, não sei o que devo sentir, até que ponto me é permitido e legítimo sentir e sei que isso soa como algo egocêntrico "o que EU devo sentir" mas só posso interferir na minha existência, só sei o que se passa no meu interior. Por fuga desse egocentrismo eu abafo enquanto tento racionalizar como agir diante dessas situações. O que dizer? O que fazer? Por  quanto tempo? O que acontece que eu perco totalmente minhas estruturas e rumo?
Ao longo de toda essa semana não tive vontade de fazer nada comum à minha rotina, vivi e ainda vivo um grande vazio, sem encontrar nenhuma das respostas para as questões acima. Fatalidades acontecem, não estamos preparados. Não consegui falar, escrever, elaborar... mas dói, sendo ou não permitido, dói.
Ser quieta quanto aos meus pensamentos mais profundos me faz mal, sempre que tenho oportunidade de falar o choro vem a garganta e me esforço para segurá-lo até que passe, daí não choro mas também não falo. E por não falar talvez ainda esteja vivendo um luto de 2 anos atrás acumulados com outros posteriores lutos que não superei, apenas acho que superei.
Em datas específicas sentimos e lembramos das perdas, das dores, lembranças que arquivamos para seguir em frente.
Ao longo dos últimos 18 meses fui vivendo cada etapa do luto, respeitando meu tempo, maturando minhas culpas, até que me senti leva novamente e arquivei a culpa, não a lembrança mas ela não estava resolvida e voltou, bem devagar quase sem que eu a percebesse.
Na última semana ela chegou com presença, cada respiro uma lembrança de um erro cometido, de uma insegurança relacionada a perdas e a não dar conta delas e de não ser capaz de acolher as pessoas diretamente relacionadas a estas perdas.
Lembrei de algo que eu já havia aprendido: eu NÃO POSSO salvar o mundo. NÃO POSSO livrar as pessoas da dor que elas tem que sentir e elaborar por elas mesmas. E no fim lembro que EU não posso ajudar ninguém esquecendo de me ajudar antes. Não vivi toda a dor por ter vergonha de falar e incomodar as pessoas com um assunto que pode tira-las do eixo, assuntos que elas decidiram arquivar e eu nome do respeito que tenho aos outros arquivo minha fala que entala na garganta sempre que tenho oportunidade de desabafar e extravasar.
Eu errei, bastante, mais do que esperava nos últimos 2, 3 anos e além de aprender com isso me envergonho cada vez que reconheço um novo erro.
Eu sei que esse incômodo da última semana é mais uma transformação chegando e a passos lentos vamos caminhando e aprendendo, com dores e frustrações que nos lembram do mundo real e fatal. O sono pesado que sinto é meu corpo querendo fugir e desligar, tentando achar conforto no inconstante. Eu preciso falar, com os outros, aprender a não me sentir mal por me expor.

sábado, 8 de junho de 2019

Fenomenologia astrologica bukowskiana

Ouço sempre sobre capricornianos serem coração gelado, engraçadíssimo a péssima análise astrológica do senso comum, sendo astrologia pseudociência ou não. E isso me levou a refletir sobre porque estudar humanismo é tão difícil mas faz tanto sentido e parece tão óbvio pra mim. A questão não está no que chamam frieza e no meu caso, astrologicamente, ainda temos a combinação com uma vênus em áquario, a tal liberdade nos relacionamentos. Não significa que sou fria E do mundo OU de ninguém. Não.  Significa apenas, voltando ao humanismo existencial fenomenológico, que eu sou totalmente responsável pelo que faço e sinto e penso mas tenho um total de zero controle sobre o outro. Significa que não importa o quanto eu sinta se o outro não for recíproco, seja por qual motivo for, apenas me cabe respeitar. Por toda minha vida agi assim. Isso pode ser interpretado de diversas formas inclusive como frieza e falta de compromisso. Doce engano. Talvez como em Bluebird de Bukowski para além da noção de responsabilidade pelos meus atos, sentimentos e interesses há um pássaro azul em meu coração que não quero que ninguém conheça, que deseja fugir, sair mas que só o deixo em algumas noites quando ninguém está olhando. Não quero arriscar deixar o pássaro voar e me frustrar, não quero sentir uma possível rejeição que já inunda meus pensamentos profundos desde que me entendo observando esse universo de relacionamentos. Misturando com a astrologia, como boa capricorniana guardo tudo nas profundezas, como boa pessoa com vênus em áquario quero deixar o outro o mais livre possível pra escolher ir, talvez eu só esqueça de demonstrar que ele pode escolher ficar. Eu, que me identifico com Bluebird há tantos anos,  acredito que deixando ele sair posso me foder na vida, em tudo que acho que construí, que ele pode desmanchar a ideia que criei do que sou. No fundo talvez eu nem saiba o que sou e fujo tanto disso por medo de quebrar verdadeiramente a cara como nas paranóias que alimento e me acostumei a alimentar. Eu como boa regida por saturno sou lenta tão lenta que as vezes só permito me entregar depois que o outro já está tomando a decisão de partir e então eu só aceito e, iludida de sabida, reafirmo minhas teorias sobre que os outros podem escolher ir e de que eles sempre escolhem ir, achando que foi melhor assim.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Processo

Sinceramente eu ando cansada de discutir sobre pessoas. Não faço ideia do que se passa na cabeça delas a meu respeito e de fato nunca saberei. Já não penso mais nisso porque não me faz mais sentido. Quando calha de pensar demais acerca disso coloco em jogo o que to reconstruindo sobre o que sei de mim. Eu sei que já errei com todos meus amigos e agora é a parte do que faço a partir disso. 
A vezes sinto vontade de ouvir o que todos tem a me dizer mas se eu não tenho nada a dizer a eles porque eles necessariamente teriam?
Tempo. Sempre fui regida por ele. O tempo que levamos errando, o tempo que levamos a perceber os erros e para se desculpar, o tempo que  os outros levam para lidar com a desculpa. O meu tempo com todos os erros que cometi acabou, no sentido de que isso já não me pesa mais. Mas eu sou eu, você é você, como se diz na Oração da Gestalt. E eu respeito. Já não posso mais sofrer por algo que senti intensamente, observei e absorvi o que me servia para aprender. Se sofremos é porque aquilo ainda está em desordem. 
Eu quero discutir ideias, teorias, malucas ou não, fantasias, sonhos, aqueles papos que surgem e que ninguém dá bola porque acham que é doido demais para se levar a sério. Quero recuperar meu ser criativo. Tô pesada de tanto falar de gente, com gente, que não leva a gente a nenhum lugar. Círculos viciosos. Eu quero saber muito de um assunto e ter brilho nos olhos de debater sobre o que gosto e ouvir pessoas falando sobre o que elas gostam. Eu quero deixar pra trás de vez a sensação que ainda sou tóxica pras pessoas que me viram a cara. Eu quero curtir o caminho. Eu quero ter mais da mesma sensação que tô tendo agora, sentada de frente pras montanhas, sentindo o vento no rosto, num dia de céu azul, com uma música tocando nos fones, respirando fundo. 
No fim da minha respiração ainda tem um pouco de sofrimento, eu ainda estou no processo embora ele já seja muito mais leve que meu ano passado todinho. A gente sofre pra curar, sofre pra aprender.
Ainda vou cometer tantos erros. Que eu seja consciente para reconhecê-los prontamente. 
Não posso exigir que ninguém sinta o que eu sinto, as desculpas sinceras eu pedi mas queria que tudo isso acabasse logo. Sigamos no processo e na constante reorganização que é a vida.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Uma tonelada

Uma tonelada não mede o que de peso de cansaço emocional e físico eu tenho tido essa semana. Não é falta de tentar. Eu estive bem no último mês, senti que estava finalmente me resolvendo com meus monstros internos, nada mais pesava, nada tirava horas do meu dia pra vagar mentalmente, eu estive bem disposta fisicamente, eu enfrentei minha preguiça várias vezes, eu estava realmente colocando ordem na casinha. 
Quando esse mês começou uma nuvenzinha carregada foi se aproximando, controles foram sendo desligados, o corpo foi se arrastando, a mente vagando, o foco foi indo embora. Colapsei. Trouxe à tona sentimentos intensos que pensei que já não me pertenciam, bad trips que jurava que tinha me desfeito, culpas que já foram em algum momento deixadas de lado. E vieram com tudo, cada dia uma batia à porta e se juntava com as outras acumuladas, em poucos dias minha paz de um mês foi pro ralo.
Só que eu reencontrei as pessoas que me foram de grande ajuda durante o ano passado, algumas que sem que eu fale uma palavra me confortam com sua presença, outras que já me ouviram e compreendem meus devaneios e sabem que estou tentando me livrar deles. Eu realmente estou. Mas talvez a forma que tinha encontrado e parecia ser perfeita para lidar com isso já não esteja sendo suficiente. Eu preciso mudar. 
O que ninguém fala sobre resiliência é que além de um processo bonito e uma capacidade encantadora que temos é também um processo doído, cansativo que quase nos esgota. Quase. Depois de muitas tempestades que tive nos últimos meses, sempre veio algo bom sim e minha capacidade de regeneração foi se transformando. A medida que torno o que me machuca consciente tenho mais poder de escolha sobre isso. Eu escolho não frequentar lugares, não encontrar pessoas quando acho que isso ao invés de me curar vai me adoecer mais. Eu posso escolher isso. Não elimina minha dor, não faz minhas neuroses virarem fumaça, mas funciona. Bem como por vezes eu reconheço que preciso encarar todas essas coisas, que preciso por pra fora, gritar e outrora não resolve fazer nem isso nem aquilo, basta esperar.
Mesmo sabendo formas e atitudes que já me ajudam tem semanas como essa que podem pesar uma tonelada, que cada micro atitude vira um iceberg e vai se enfiando profundamente lá onde tudo estava sendo resolvido pouco tempo atrás.
Eu estou sobrecarregada de mim. Só eu posso me livrar disso. E pra me livrar de vez eu sei que vai levar tempo e que é preciso respeitar esse tempo. Sei também que quanto mais a gente negligencia o que sente mais enganados ficamos. Se tudo isso veio mesmo com tanta gente boa ao meu redor é porque eu ainda não me livrei. 
Eu quero olhar pra esse abismo sem me tornar ele por completo mas sabendo que ele faz parte de mim e sempre fará mas o que eu faço com ele por agora? 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Eu precisei dar um tempo

Eu precisei dar um tempo.
Eu já estava engasgada há muito com tudo e calhou do celular estragar.
Eu quis falar o que me incomodava mas ao mesmo tempo aquilo parecia mais uma das minhas neuroses querendo me dominar em um momento de fragilidade e depressão. Não queria soltar palavras ao mundo sobre algo que incomodava só a mim, sempre que isso acontece eu ajo pensando que se eu criei uma neurose sou quem tem que lidar com ela não os outros e não comentei com n i n g u é m. Convivi com elas nas últimas semanas, no último mês, alguma até no último ano, fora as que a gente já carrega na mala da vida. Eu sumi das redes sociais por uma semana, eu sumi, e confesso, querendo num primeiro momento que me procurassem, que me oferecessem ajuda quando eu nem mesmo pedi, eu quis algo que não ia acontecer. Eu tentei fugir do dia fatídico e ele chegou, eu vivi como pude. Como muita gente que sofre calada eu sumi sem dar explicações porque as chances de ser apenas considerado drama são altas e talvez até seja um drama mas de alguém que se perdeu e precisa de uma pausa pra se realinhar.
Estava me sentindo incomodada com pessoas do meu cotidiano e não era de agora mas não podia dizer, a minha queixa seria considerada como o feitiço virando contra o feiticeiro e sabe se lá onde iria dar. Eu sumi deles, mas com alguns outros amigos eu busquei conversar. Não sei como será daqui adiante e não quero me justificar porque explicar algo que só aconteceu na minha cabeça e no meu corpo não é uma tarefa fácil nem mesmo que possa ser concluída porque quando proferida em voz alta, perde todo seu sentido mas eu juro, eu senti.
Eu precisei dar um tempo, por mim mas se fosse eu do outro lado não ficaria contente. Só que viver uma vida toda pensando do outro lado e se anulando não é a melhor saída sempre. Eu precisei dar um tempo, talvez não da melhor maneira porque sozinho você não enxerga nada, mas sem estar sozinho você não se encontra também.
Eu precisei dar um tempo e experimentei o gosto nada doce do tempo que dei uns anos atrás e me afundei. Eu não quero me afundar de novo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Dia Dois

O dia amanheceu com neblina e foi ficando azul, com um sol quente, totalmente diferente da chuva que caía um ano atrás. Acordei sem despertador como naquele dia, fiquei com receio de olhar o celular, tive uma rápida sensação de reviver tudo, o dia todo foi assim. Pois bem, escolhi um vestido floral, pedi o carro do meu pai antes "o famigerado carro do pai", busquei nossa amiga e fomos. Não conversamos muito mas falamos sobre ter acordado melhor do que imaginávamos.
Entramos e muitas flores da sua tia avó ainda estavam por lá, secas, sem cheiro e tapando sua foto. Encostamos no túmulo, falamos umas coisas, ficamos no nosso silêncio, ela em suas orações e eu.. tentando entender o que fazer ali senão conversar com você, não sou boa nisso né?
Não sabia o que falar, o que pensar, o que dizer, mas era um "silêncio" confortável. Olhei pro túmulo, quase me debrucei sobre ele e resolvi olhar pro céu, todo azul, com a lua ainda lá e umas nuvens rajadas, dois rajados pra ser exatas, sei lá porque quis pensar que pareciam asas, lembrei das suas asas nas costas, pensei que era muita viagem mas eu queria achar algo que nos reconectasse, queria algo seu, guardei isso pra mim. Rimos de alguma coisa, conversamos e Carol pediu um abraço. No dia anterior ao abraçá-la eu fui tomada por uma emoção que me fez chorar e eu estava engasgada, inquieta... já nesse eu disse que foi mais leve. Eu senti uma cheiro doce, como de rosa, ela também, mas o cheiro não era nosso, nem das flores secas.. Lá eu não chorei, eu realmente não sentia muita coisa, foi a primeira vez que não chorei ali, deu até vontade de sentar como você fez quando fomos lá juntos e deve ser por isso que fiquei encostada lá tanto tempo. Sua tia chegou com duas rosas nas mãos, toda vestida de rosa, Juninho chegou com uma camiseta rosa, meu vestido tinha rosas, a blusa da Carol também, de alguma forma eramos de novo nós juntos, lá, um ano depois de tudo, meio desajeitados, mas juntos por você, sem combinar.
Quando voltei pra casa fui tendo umas emoções ao longo do dia, busquei músicas que me lembravam você, ouvi, senti, me acalmei de novo. E fui pra aula, mas eu queria ficar na minha, ate pensei em contar pra alguém sobre você mas não quis, fiquei perto dos amigos mas de fone, com meu café, com a cabeça vazia. Até que a Lecticia veio e me deu um abraço toda emocionada. Tirei os fones e conversei, e ela disse que sabia que eu queria chorar mas tava segurando e eu não queria  mas quando ela falou veio, minha garganta fechou, nos abraçamos e ela me pediu pra ouvir o que tava tocando no celular e nesse exato momento, controlando as lágrimas que queriam sair Criolo cantou:
"Não quero ver você triste assim, não

Que a minha música possa te levar amor (...)
Esperando a lotação pra ir pro evento de rap
Lembrei de alguém que não tá mais entre a gente
A dona morte vem, carrega os mano na mó pressa
Uma estrela a mais no céu, um rimador falta na Terra
Deus sabe sempre o que tá fazendo
Mesmo sabendo disso eu sofro, vai vendo
Quem tem noção das coisas, sente o peso da maldade
A cobrança é maior, inteligência atrai vaidade
E quem se deixou levar fraquejou
Essa é a verdade, aprenda com os erros
Não se sinta um covarde
Na praia, Jesus me carregou no colo
Eu vi o par de pegadas, não entendi o óbvio
Que o fardo não é maior do que posso carregar
Se a vida é o jogo, então, vamos ganhar"


Entendi isso como um recado, comecei a rir de nervoso e a Lecticia disse que nada é por acaso, nem isso, nem nada do que acontece. Por algum motivo eu quis dar atenção a isso e ouvir como um recado, seu e da vida. Eu não fiquei olhando o dia todo o que as pessoas escreveram pra você, procurei alguns, quase voltei pras redes pra escrever mas seria algo pros outros, não meu pra você e as músicas falaram comigo. Subindo pra sala coloquei o fone de novo e tocava um trecho que você disse que lembrava de mim:

"Oh! Meu Deus
Eu disse que eu não 'tava bem
Logo em seguida ela vem
Me faz melhorar"


E foi com essas coisas, que eu quis dar sentido e sentimento, que meu dia acabou.
Há um ano eu tive a semana mais estranha que eu não sei se vivi ou se liguei o modo automático e fui. Há um ano eu lembro de você todos os dias. Dirigir me faz lembrar de você. Criolo, Rael, Marrocos, Bruno, Samuel. Seguimos, se cuida e quando puder diz como é que cê tá. Te amo filho, amigo, irmão.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Rosas brancas

O dia está atípico desde a hora que acordei.
Minha mãe chegou meio agitada e por algum motivo eu já esperava uma notícia ruim, que não existia. Mas ela me fez um pedido e não pude recusar. Fomos então comprar duas rosas brancas para levar ao cemitério. Nesse último ano fui mais vezes lá do que gostaria mas hoje cheguei a conclusão que lá é um lugar para encerrar alguma coisa. Pois bem o motivo era meu avô mas pelo caminho todo até a hora de descer da moto eu pensei no meu avô, claramente e nas pessoas que me levaram até lá nesse último ano. Levei óculos escuros porque sabia que em algum momento eu quebraria. Procuramos o lugar, minha mãe deixou uma das rosas, trocamos umas palavras e deixem ela em silêncio. Como das outras vezes eu já iria em direção ao túmulo do Bruno mas antes minha mãe pediu que eu deixasse a outra rosa lá, para ele e eu quebrei. O dia pela manhã estava nublado, tal qual foi quase um ano atrás, mas não chovia. Eu chovia enquanto caminhava até lá. Não soube bem o que fazer, das outras vezes eu pedia pela paz e calma dele dessa vez eu tentei não chorar mas não deu, pensei rapidamente que ele estivesse em paz, que estivesse bem e depois não soube o que pensar, parei de chorar e antes de caminhar pra ir embora meu pensamento foi de pedir desculpa, desculpa se meus pensamentos diários nesse último ano não foram sempre os de pedir por paz mas também de dor, eu ainda não me livrei dela. Saindo de lá eu tive um insight, desde o fatídico dia eu pedi sempre por paz, por calma, por estar bem, por pensarem coisas boas pra ele e se no fundo toda essa paz que pedi e emanei a ele fosse um pedido por mim também? Entende? Não como um ato egoísta mas eu não estou em paz com o que houve. Cada dia que passa, nesse mês, se aproxima de completar um ano e eu tenho ficado mais e mais estranha. eu me segurei esse ano inconscientemente. Não extravasei tudo lá no começo eu precisava seguir, eu precisava fazer as pessoas seguirem, eu tinha necessidade de estar ali para ouvir tudo de todos e de cuidar de todo mundo e eu me descarreguei nisso.
Uns dias atrás sonhei com Bruno. Depois de muuuito tempo e de muito tentar inclusive. Acordei chorando. Tinha acabado minha semana de provas e eu estava com estresse altíssimo e nesse sonho aconteceu algo que eu queria muito. Nos poucos sonhos que tive eu não conseguia dar as mãos ou abraçá-lo, mas tudo bem eram sonhos... me incomodava o fato de não poder abraçá-lo nem nesse universo dos sonhos mas eu não tinha como controlar o que iria sonhar, só ele era capaz, dos que eu conheço, de controlar o que sonhar e o que fazer no sonho. haha Mas nesse dia eu acordei chorando porque por algum motivo ele tinha voltado e quando entrou no meu quarto após eu acordar eu pulei nas costas dele e dei o abraço mais apertado que pude. Então eu acordei de fato. Foi um choro de estresse mental e corporal mas foi também de alívio, demorei 11 meses pra conseguir um abraço em um sonho.
Eu ainda tenho muita dificuldade de afirmar no que acredito, porque não acredito sem duvidar nas coisas do mundo. Não sei se existe depois. Talvez seja por isso que meu pensamento sobre a paz que peço para as pessoas que morrem seja também um pedido de que eu fique em paz com esse ciclo que terminou.
Embora na hora eu não soubesse o que fazer, uma rosa branca deixada em túmulo com a foto de uma das pessoas que mais sinto saudade próximo de completar um ano em meio a várias crises que tenho tido ao lidar com o assunto recentemente foi como ilustrar a paz que preciso ter com ele: ele o assunto, ele o Bruno, ele o fim.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sobre desbalanço

Essa toxidade que eu sei bem o que causa mas não o porquê causa e traz consigo uma fita de outras toxidades as quais não posso falar com nenhum ser humano brinca de balança com outro fato o qual me veio à luz em algum momento recente. Se somos um triângulo nessa morada, considerando a quantidade de pessoas, há algo desequilibrando o meu triângulo e esse algo eu não consigo desmitificar. Sempre que estou em harmonia com um dos lados o outro está em perfeito caos. Quando estou quase equilibrando ambos um lado rompe, em silêncio profundo e lá se vai meu ideal de equilíbrio quase alcançado. A primeira toxidade já fez bons pares de anos presentes em mim mas antes não era tóxico, ao menos eu não sentia assim. Outro detalhe que se revelou há pouco tempo, uma parte da fita que agora se tornou próxima a minha toxidade me tem feito muita referência há uma fita antiga, a qual defendi por muito tempo quando ninguém entendia e depois eu levei um baile da mesma, por seus próprios motivos. Logo, agora que essa referência se faz nítida tornou-se tão tóxica quanto o que puxa a fita e minhas últimas atitudes se resumiram em fuga, em tapar os olhos para ignorar e não alimentar paranóias ou ideias as quais meu cérebro entende como reais. O lugar que eu passei quatro longos anos sendo a primeira a querer ir, deixando de lado qualquer outro plano, que tão bem me fez, tanta paz me trazia, hoje eu tenho vontade de nunca mais voltar e isso é muito forte. O lugar em si segue me dando paz, não posso dizer o mesmo sobre os momentos que tenho ali, somente eu e minha mente, meu corpo e toda minha ansiedade e frustração sabemos. Quando dou meu tempo do que eu chamo de tóxico a calma tende a voltar, não sem antes eu sentir uma vontade muito estranha de fazer o que em dias comuns não sinto mais: beber. E sempre mascarado como uma vontade normal de todo ser humano por trás vem cheia de inseguranças, medos, tristeza calada e mais uma vez fuga. Tenho uma cerveja ali na geladeira, do tipo que eu mais aprecio, das poucas vezes em que resolvo beber, e minha boca não saliva por ela. Até me forço a encontrar motivos para degustá-la mas não há vontade. Mas há toxidade, em receber algum contato do tóxico e sentir meu corpo deprimido, decepcionado. E aí lá no fundo vem o click, isso me faz querer beber, não para apreciar, mas para fugir. E eu não quero ter que fugir e não quero sentir minha energia sugada a cada contato ou experiência num dos lugares que mais me fazia feliz. Os valores que antes dei para cada coisa estão de ponta cabeça e eu só posso escrever visto o tamanho da paranóia que isso configura a qualquer ser, envolvido ou não, parecesse. Até porque quando pessoas ouvem uma determinada história tomam pra si como verdade absoluta não passível de mudança e o que eu mais quero é mudar. E sobre meu triângulo eu quero saber o que faz a conta não fechar e o balanço não funcionar. Quebrar o silêncio e entender quais pontos estão precisando de revisão e atenção real, sem hipóteses que só alimentam mais essa mente viciada em tomar como verdade o que foi apenas cogitado e jogar toda essa energia num corpo que não anda tendo vontade de extravasar. Como sempre eu precisei escrever.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Já partiram várias pessoas da minha vida e cada uma delas mexeu com uma parte dentro de mim. E se me perguntassem qual delas doeu mais, não há resposta. Morte é a parte da vida, como algumas outras, a qual eu não sei lidar e portanto é um assunto sempre dolorido e sofrido. E se me perguntassem se sinto culpa por alguma delas, sim. Por mais egoísta que isso seja. E ao mesmo tempo que é um egoísmo sem precedente é também um fundo de identificação. Fundo porque obviamente nunca soube o que essa pessoa passou ou sentiu, nem nunca saberei. Mas me sinto só e solidão é algo que penso ter feito diferença na vida dessa pessoa. Talvez eu me sinta só porque quero, já que os meus próximos estão aqui. Ainda sinto. E isso prova o quão egoísta sou eu sentir culpa pela morte de outro, ou em sentir culpa por me sentir só.
A maioria das minhas anotações foram feitas com poças de lágrimas no teclado, poético mas real. Aqui eu escrevo minhas culpas, meus nós. Aqui eu alo coisas que gostaria de desenvolver em uma conversa porque conversas são retornos e aqui não há retorno.
Choro quando meu pai não responde o meu até amanhã e quando isso me leva a pensar que eu brigo a toa com a minha mãe, o que me leva a pensar que as respostas daquele amigo me soam sempre atravessadas porque nossa relação criada em minha mente é totalmente frustrada. Essa reação em cadeia me é recorrente. E aí de alguma forma isso tudo está ligado a morte, o que me leva a pensar no meu avô, no meu padrinho, nos meus primos, na amiga de infância que perdi contato na adolescência, no meu amigo que partiram. Eu vivo culpada com medo da morte e a garganta dói fisicamente por tudo isso entranhado. E quando releio essas palavras ou repenso essas ideias sinto culpa por sentir culpa de tanta coisa que está a passados de mim e que eu posso mudar. Poderia listar minhas culpas sobre as quais posso agir e mudar. Por que não mudo? O que domina e alimenta essa insegurança que permite que eu deixe tudo acontecer enquanto observo e aceito? Por que penso que não mereço me livrar de tudo isso e o que me faz não sair desse looping eterno? O que faz com que não possa proferir em voz alta as palavras que estão em minha cabeça como se a todo momento isso pudesse ser usado contra mim?

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Não sei se é ou não é

Lidar com a frustração consciente é muito estranho.
É triste sentir que seu amigo tá distante, como se não tivessem vínculo algum, é triste não conseguir falar com seu pai e você nem sabe o porquê direito, é triste ver seu avô não tão lúcido como sempre foi e você ter que rir disso ou distraí-lo para aguentar a situação, é triste perceber que sua ficha sobre seu outro amigo não caiu e parece que nunca cairá. Na real o que é triste é sentir uma frustração sem tamanho por não saber lidar com tudo isso e perceber que são angústias que você tem há mais de uma década, não as mesmas exatamente, mas do mesmo gênero e que mesmo tendo aprendido tanto já sobre si e sobre a vida ainda não é capaz de apenas sentir, sem peso. Na verdade eu nem sei se é triste a frustração ou se sou eu falando tudo isso. Cada passo que eu dou volto uns vinte, eu não sei quantos passos eu tenho. Eu tenho saudades de conversar.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Tudo bem

Essa semana o coração tá pequenininho.
Essa saudade vai aumentando, não te ver tá me doendo, mas tá tudo bem.
Umas lágrimas fogem do controle, as músicas me lembram você, mas tá tudo bem.
O modelo do carro na rua me lembra você, mas tá tudo bem.
A banca me lembra você, mas tá tudo bem.
Despedir do nosso amigo que tá indo morar longe me lembra demais você, mas tá tudo bem.
Os espaços na rua me lembram você, mas tá tudo bem.
Tem hora que nenhum dos amigos me parece a pessoa certa pra conversar, seria você , mas tá tudo bem.
Essas lágrimas não são pra te deixar preocupado, tá tudo bem. Só não tá sendo normal viver sem você. A vida segue sim, tudo continua independente da gente sim, mas carinha, jovem, filho, irmão, que falta ce me faz. Minha companhia. Meu ombro pra chorar sem chorar e sem precisar falar. Minha fonte de risada quando estava mal ou a toa ou qualquer motivo. Queria tanto poder trocar olhares de novo com você, mesmo em sonho. Sei do tamanho do meu egoísmo pensando tudo isso. Mas queria, queria te dizer tanta coisa e também te abraçar num silencio sem fim. Queria ter aprendido tanta coisa  mais com você, logo você que me passou tanta confiança, que me ensinou a confiar em mim. Queria dormir do seu lado de novo, de mãos dadas, como nunca fiz com nenhum outro amigo, ouvindo seu ronco alto quando estava cansado. E pegar estrada com você? Você topava tudo que eu falava e eu topava quase tudo com você, mas as vezes meu eu racional berrava. Meu aniversário está chegando e de alguma forma me dói não te ver aqui, nem no natal, nem no aniversário me aprontando surpresas e no ano novo gritando "mãe" lá fora. Como eu amo você, mas tá tudo bem. Queria poder te pedir qualquer coisa. Só que sei que eu não pediria. Então se estiver em algum lugar fica bem, fica forte, fica em paz e aqui... vai ficar tudo bem.